{"id":3337,"date":"2018-06-28T15:00:33","date_gmt":"2018-06-28T15:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/artmagazine.pt\/?p=3337"},"modified":"2018-06-28T18:01:47","modified_gmt":"2018-06-28T18:01:47","slug":"a-minha-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/2018\/06\/28\/a-minha-historia\/","title":{"rendered":"A minha Hist\u00f3ria&#8230;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">O meu pai deixou a minha m\u00e3e quando ela estava gr\u00e1vida de mim, ele n\u00e3o queria acreditar que eu era filha dele e depois de algum tempo de eu ter nascido fizemos um teste de ADN, onde foi ent\u00e3o comprovado, e mesmo assim ele nunca quis saber de mim, sempre procurou a droga\u2026 Basicamente fui criada pela minha baby-sitter, ela foi e, \u00e9 uma segunda m\u00e3e para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu morava com a minha m\u00e3e, e os meus av\u00f3s\u2026o meu av\u00f4 \u00e9 que tinha o papel de pai. O meu irm\u00e3o estava institucionalizado e s\u00f3 ao fim de semana \u00e9 que eu estava com ele. Ele foi para adop\u00e7\u00e3o quando eu tinha 3 anos e ele 8 anos, apartir da\u00ed n\u00e3o soube mais nada dele\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Na escola sofri de bullying por ser a \u00fanica menina que n\u00e3o tinha pai no meu bairro e, por o meu irm\u00e3o ter sido retirado. At\u00e9 aos meus dez anos foi sempre a mesma coisa, batiam-me, gozavam-me, \u2018faziam de mim o que queriam\u2019&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O meu av\u00f4 ficou doente e n\u00e3o resistiu, tinha nove anos quando ele faleceu, senti o meu mundo a desabar, n\u00e3o queria saber da escola, comecei a fumar, ganhei interesse pelo Hip-Hop , onde continua hoje ainda a ser a minha paix\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Tinha dez anos quando tive um processo na CPCJ, por abandono escolar e juntei-me a um grupo muito mais velho do que eu, alguns deles j\u00e1 teriam atingido a maioridade. A\u00ed, reencontrei o meu irm\u00e3o, mas s\u00f3 comunic\u00e1vamos por facebook, pois os pais adoptivos n\u00e3o o deixavam ter contacto com a fam\u00edlia biol\u00f3gica. Aos dezassete anos ele voltou a ser retirado \u00e0 fam\u00edlia, onde tamb\u00e9m veio para a ART!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Aos onze anos comecei a consumir haxixe, passado um certo tempo a minha m\u00e3e come\u00e7ou a desconfiar e aos doze anos eu contei-lhe a verdade. Ela com medo que eu consumisse outras subst\u00e2ncias ou com medo que eu arranjasse outros m\u00e9todos para o comprar, come\u00e7ou-me a dar dinheiro para os meus consumos! A minha m\u00e3e j\u00e1 n\u00e3o aguentava a press\u00e3o, era o tribunal a apertar por abandono escolar j\u00e1 alguns anos, a filha dela passou a ser uma sem vergonha, e o filho que lutou para o encontrar durante anos tinha vindo parar a uma comunidade terap\u00eautica\u2026 Em meados de 2013 deu-lhe uma paralisia facial, eu nem acreditava que estava a ver a minha m\u00e3e com a cara deformada\u2026 J\u00e1 n\u00e3o bastava toda a minha revolta e, eu era a culpada do sucedido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0J\u00e1 em grupo com as pessoas da velha guarda, comecei a sair \u00e0 noite onde despertou-me novas curiosidades, como o tranze e o \u00e1lcool, foi ai que comecei a beber e fumar haxixe com frequ\u00eancia. Numa das minhas sa\u00eddas nocturnas conheci o meu primeiro namorado, \u00e9ramos doidos um pelo outro, ele tamb\u00e9m consumidor, e decidimos come\u00e7ar a traficar, apresentei-o \u00e0 minha m\u00e3e e ela at\u00e9 gostaria um dia o ter como seu genro, mas s\u00f3 n\u00e3o sabia \u00e9 que ele era como eu\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O problema \u00e9 que o amor virou obsess\u00e3o e ao final de um ano de namoro come\u00e7aram as desconfian\u00e7as e as agress\u00f5es. Tinha doze anos, ainda uma menina, e j\u00e1 era agredida pelo meu namorado na altura, ele n\u00e3o me queria com nenhum dos meus amigos, se eu me aproxima-se de algu\u00e9m j\u00e1 o estava a trair, ele fazia chantagem, obrigava-me a roubar \u00e0 minha pr\u00f3pria fam\u00edlia para ter para a noite\u2026 Comecei ent\u00e3o a tornar-me uma mi\u00fada violenta, agredia a minha fam\u00edlia, inclusive a minha av\u00f3\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com treze anos fui institucionalizada num Lar de Inf\u00e2ncia e Juventude, onde habitei durante nove meses, mas as coisas n\u00e3o correram l\u00e1 muito bem, engravidei, e a minha m\u00e3e obrigou-me a abortar. Deixei-lhe de falar, ganhei-lhe \u00f3dio na altura, pois o que mais queria era ser m\u00e3e, n\u00e3o queria saber sequer como o sustentar, apenas o queria ter.. Fui acusada de tr\u00e1fico e fiquei sem escola, quase com catorze anos e s\u00f3 com o 4.\u00ba ano completo. O meu ex-namorado continuava-me a tratar mal, a minha vida era horr\u00edvel\u2026 At\u00e9 que conheci a auto-mutila\u00e7\u00e3o, s\u00f3 a magoar-me \u00e9 que eu me sentia bem, tentei-me suicidar v\u00e1rias vezes, mas todas as vezes sem sucesso, sa\u00ed do &#8220;LIJ&#8221; em meados de ver\u00e3o de 2016, eu s\u00f3 queria aproveitar o tempo perdido, acabei a minha rela\u00e7\u00e3o pois aquilo j\u00e1 n\u00e3o tinha pernas para andar, and\u00e1vamos a remar contra a mar\u00e9 e n\u00e3o valia a pena\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0No dia em que sa\u00ed da institui\u00e7\u00e3o fui logo ter com os meus supostos \u2018manos\u2019 , e voltou tudo \u00e1 estaca zero, comecei outra vez a consumir e traficar, passado semanas de ter sa\u00eddo da institui\u00e7\u00e3o o marido da minha tia convidou-me para ir a casa dele fumar um charro, eu fui numa boa, afinal ele era o homem da irm\u00e3 da minha m\u00e3e, mas nessa noite a minha vida mudou\u2026 Ele violou-me e disse para n\u00e3o contar a ningu\u00e9m, muito menos \u00e0s pessoas da fam\u00edlia\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Com medo que a minha m\u00e3e apresenta-se queixa e a minha tia ficasse sem os filhos eu, n\u00e3o contei a ningu\u00e9m. Eu sentia nojo de mim, chorava toda a vez que me olhava ao espelho, foi horr\u00edvel ver algu\u00e9m a for\u00e7ar-me ao que eu n\u00e3o queria, nunca me vai sair a imagem da minha cabe\u00e7a\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Eu tornei-me numa jovem violenta e problem\u00e1tica, a escola n\u00e3o me interessava, eu queria era curtir, todos os dias bebedeiras e droga para o organismo, em menos de tr\u00eas meses fiquei pior do que era antes de ser institucionalizada, abriram quinze processos por agress\u00f5es e coisas mais, o juiz deu-me v\u00e1rias oportunidades, mas eu ainda gozava com ele, eu \u00e9 que sabia de tudo\u2026Comecei a ir para as festas de trance e techno novamente, onde tudo passava, e comecei a experimentar coisas novas, tivesse ou n\u00e3o em festas, eu queria era MD, s\u00f3 assim \u00e9 que estava tudo bem comigo\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Ganhei interesse por rapazes mais velhos do que eu, s\u00f3 dos 18 anos para cima, todos os fins-de-semana tinha um carro diferente a porta, nenhum rapaz me agarrava eu s\u00f3 queria curtir, sem nunca pensar nas consequ\u00eancias\u2026Jurei vingan\u00e7a a todos aqueles que me ofereciam dinheiro em troca de uma noite, e todos os que tentaram, todos se arrependeram\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em 2017 um dos meus melhores amigos tinha ido para uma institui\u00e7\u00e3o e tudo tinha perdido a gra\u00e7a, nada era igual sem o nosso menino connosco, entrei numa depress\u00e3o profunda, n\u00e3o sa\u00eda de casa para nada a n\u00e3o ser para ir buscar droga. Em Janeiro de 2017 acordei a vomitar sangue, fui de urg\u00eancia para o hospital, mas nada foi detectado, durante seis meses aconteceu sucessivamente, a meio de cada m\u00eas ia sempre para o hospital, a vomitar sangue e com dores no abd\u00f3men, at\u00e9 que em Junho detectaram-me uma \u00falcera nervosa no est\u00f4mago\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Em Junho de 2017 morreram um primo meu e um grande amigo, afogados na praia de Espinho, foram dez dias desesperantes sem saber onde \u00e9 que eles poderiam estar, foi uma dor t\u00e3o grande n\u00e3o os poder ver mais. Reca\u00ed em coma num hospital, n\u00e3o dava para cair na real, em Julho o meu melhor amigo, melhor amigo do meu primo tamb\u00e9m, enforcou-se, pois n\u00e3o se tinha mentalizado com a morte do meu primo, eu fiquei de rastos, s\u00f3 queria desaparecer, e busquei um novo refugio, o crack, e assim foi at\u00e9 ao dia de vir para a &#8220;ART&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Vim para a &#8220;ART&#8221; dia 2 de Novembro de 2017, e a\u00ed, a minha vida mudou, eu n\u00e3o acreditava, parecia um pesadelo, eu s\u00f3 queria fugir, hoje passado quatro meses, agrade\u00e7o por ter vindo para c\u00e1, mesmo a 500 e tal km de casa foi o \u00fanico escape, a esta hora n\u00e3o sabia o que seria de mim, do lado de fora isto parece horr\u00edvel, mas os monitores s\u00e3o cinco estrelas, sempre preocupados e empenhados no nosso bem-estar, o pai Crespo ent\u00e3o, n\u00e3o vale a pena falar, est\u00e1 sempre do nosso lado, espero daqui a um ano poder orgulhar a minha fam\u00edlia e ser algu\u00e9m, e daqui a uns anos vir visitar Associa\u00e7\u00e3o de Respostas Terap\u00eauticas e os monitores, e saberem que sempre teve algum efeito todo esfor\u00e7o e dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 minha pessoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Utente da &#8220;Art&#8221; de Castro Verde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O meu pai deixou a minha m\u00e3e quando ela estava gr\u00e1vida de mim, ele n\u00e3o queria acreditar que eu era filha dele e depois de algum tempo de eu ter nascido fizemos um teste de ADN, onde foi ent\u00e3o comprovado, e mesmo assim ele nunca quis saber de mim, sempre procurou a droga\u2026 Basicamente fui [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":19,"featured_media":3338,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"spay_email":""},"categories":[32],"tags":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/i0.wp.com\/artmagazine.pt\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/EU....jpg?fit=960%2C639&ssl=1","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p8Zpru-RP","jetpack-related-posts":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3337"}],"collection":[{"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/19"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3337"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3337\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3351,"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3337\/revisions\/3351"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3338"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3337"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}