{"id":2697,"date":"2017-07-04T14:36:48","date_gmt":"2017-07-04T14:36:48","guid":{"rendered":"https:\/\/art.pt\/artmagazine\/?p=2697"},"modified":"2017-07-04T15:25:50","modified_gmt":"2017-07-04T15:25:50","slug":"pedro-strecht-a-arte-de-construir-o-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/2017\/07\/04\/pedro-strecht-a-arte-de-construir-o-futuro\/","title":{"rendered":"Pedro Strecht: &#8220;A ARTe de CONSTRUIR O FUTURO&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Muitos dos rapazes e raparigas colocados na ART tiveram, de alguma forma, dificuldades emocionais no in\u00edcio dos seus percursos de vida. A maioria das vezes, por quest\u00f5es que at\u00e9 lhe foram completamente alheias e que n\u00e3o dependia necessariamente deles. Mesmo situa\u00e7\u00f5es extremas a que chegaram ou acabaram por viver, nomeadamente as relacionadas com absentismo escolar, problemas de comportamento ou abuso de subst\u00e2ncias aditivas, fecharam ciclos de desamparo, dor, zanga, desafio e revolta e que se iniciaram bastante antes da refer\u00eancia a esta institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por isso, n\u00e3o \u00e9 complicado entender que no dia a dia deste trabalho terap\u00eautico encontramos hist\u00f3rias de vida de adolescentes que est\u00e3o demasiado presas de experi\u00eancias negativas do passado, e que ainda agora parecem modelar rela\u00e7\u00f5es consigo pr\u00f3prios e com os outros, quer sejam respeitantes ao seu grupo de pares ou a adultos de refer\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ser colocado na ART, independentemente dos motivos pelos quais cada qual aqui chegou, n\u00e3o \u00e9 de in\u00edcio tarefa f\u00e1cil para ningu\u00e9m. Apesar de tudo, o primeiro desafio \u00e9 a necessidade imediata de fazer uma rotura, de ganhar dist\u00e2ncia com viv\u00eancias que, durando h\u00e1 tempo demais, estavam muito provavelmente a levar os jovens para uma sensa\u00e7\u00e3o evidente de um beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Para tr\u00e1s fica ent\u00e3o a fam\u00edlia, outra institui\u00e7\u00e3o, um bairro, uma casa, amigos, namoros. Ficam igualmente distantes outros comportamentos repetidos como os pautados pela agressividade e destrutividade, tantas e tantas vezes dirigidas contra o pr\u00f3prio e implicando riscos f\u00edsicos, emocionais e sociais muito complicados que, se n\u00e3o fossem contidos nem trabalhados, refor\u00e7ariam caminhos futuros muito negros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A ART oferece a possibilidade de um novo come\u00e7o. A viv\u00eancia, de num outro espa\u00e7o, se poder ter um outro tempo. Tempo de recordar o passado apenas para que este n\u00e3o se possa nem deva repetir. Tempo de, finalmente, poder olhar para o futuro, de uma forma que permita a presen\u00e7a de duas palavras quase sempre esquecidas: ajuda e esperan\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A todos os adolescentes que conhe\u00e7o na ART acabo quase sempre por dizer de formas diferentes o essencial de uma mensagem que me parece ser fundamental que encarem: estar aqui e agora em Castro Verde, neste espa\u00e7o, com estes adultos e outros jovens \u00e9, e ser\u00e1 sempre, um simples momento de passagem. As suas vidas passam por aqui, mas n\u00e3o se det\u00eam aqui: v\u00e3o prosseguir. E nesse trajecto que se quer olhado de frente, a todos desejo que num futuro breve n\u00e3o seja necess\u00e1rio voltar a estar num local de caracter\u00edsticas id\u00eanticas ou at\u00e9, eventualmente, piores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por vezes, os momentos de crise ou dificuldade que todos encaramos ao longo das nossas vidas n\u00e3o podem nem devem ser olhados como pontos irrevers\u00edveis do nosso funcionamento enquanto pessoas. Ali\u00e1s, partilho da opini\u00e3o que todas as crises ou quebras do desenvolvimento podem ter em si pr\u00f3prias o enorme des\u00edgnio de obrigar a mudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A ART serve para ajudar a mudar. Por isso, todos os que aqui s\u00e3o acolhidos merecem o meu maior respeito. Por aquilo que s\u00e3o enquanto adolescentes, mesmo estando consciente dos pontos de maior dificuldade que cada um tem, para os quais incito a que olhem sem medo nem vergonha. Pelo que acredito na possibilidade evolutiva dos mais jovens, a que por diante ainda espera uma vida inteira por construir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Desejo que na ART ningu\u00e9m se sinta s\u00f3. Ou, pelo menos, t\u00e3o isolado, triste ou perdido como, de certeza, j\u00e1 aconteceu para tr\u00e1s. Pe\u00e7o a todos que, mesmo lentamente, aprendam de novo a confiar, a estabelecer liga\u00e7\u00f5es de afecto, de representa\u00e7\u00e3o emocional positiva, que de igual modo ajude a recordar pontos positivos ou fortes que cada qual tem e pode sempre evocar no infinito di\u00e1logo com todos e tudo aquilo que os rodeia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pedro Strecht<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 M\u00e9dico Pedopsiquiatra da ART<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Muitos dos rapazes e raparigas colocados na ART tiveram, de alguma forma, dificuldades emocionais no in\u00edcio dos seus percursos de vida. A maioria das vezes, por quest\u00f5es que at\u00e9 lhe foram completamente alheias e que n\u00e3o dependia necessariamente deles. 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