{"id":2518,"date":"2017-06-22T21:38:59","date_gmt":"2017-06-22T21:38:59","guid":{"rendered":"https:\/\/famser-ipss.pt\/gps\/?p=2518"},"modified":"2017-06-22T21:38:59","modified_gmt":"2017-06-22T21:38:59","slug":"pedro-strecht-as-criancas-precisam-de-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/artmagazine.pt\/index.php\/2017\/06\/22\/pedro-strecht-as-criancas-precisam-de-paz\/","title":{"rendered":"Pedro Strecht: &quot;As crian\u00e7as precisam de paz&quot;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><strong>O n\u00famero de casais portugueses que se separa tem vindo a aumentar de ano para ano.<\/strong> Com a \u00faltima altera\u00e7\u00e3o \u00e0 lei do div\u00f3rcio as estat\u00edsticas registaram mais div\u00f3rcios que casamentos. Pedro Strecht, pedopsiquiatra, diz que no seu consult\u00f3rio recebe muitos pedidos de ajuda e de aconselhamento. Por isso real\u00e7amos esta entrevista onde o mesmo responde \u00e0s principais d\u00favidas dos casais que passam por um div\u00f3rcio onde existem filhos. Aqui ficam algumas das d\u00favidas que com mais frequ\u00eancia lhe chegam.<\/p>\n<p><b>\u00c9 melhor evitar a todo o custo uma separa\u00e7\u00e3o s\u00f3 para se manter a imagem de uma fam\u00edlia unida?<\/b> H\u00e1 pais que prolongam demasiado situa\u00e7\u00f5es irrevers\u00edveis para as suas vidas, atingindo, por vezes, o limiar do insuport\u00e1vel, s\u00f3 para manter uma ideia de fam\u00edlia nuclear, n\u00e3o importa a que pre\u00e7o. Nunca \u00e9 bom prosseguir situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras e que fragilizam emocionalmente.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Mesmo quando se julga estar a actuar no superior interesse das crian\u00e7as?<\/b> \u00c9 sempre negativo viver cen\u00e1rios de mentira e fachada. Isso pode deixar os mais novos desprotegidos perante a possibilidade de interioriza\u00e7\u00e3o de modelos de rela\u00e7\u00e3o patol\u00f3gicos, existindo o risco de se desenvolver a imagem de um pai ou uma m\u00e3e demasiado impulsivo ou agressivo ou, pelo oposto, excessivamente fr\u00e1gil e indefeso. Se os pais n\u00e3o est\u00e3o bem na rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua, tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e3o suficientemente fortes e dispon\u00edveis para os filhos. \u00c9 \u00fatil lembrar que os filhos n\u00e3o s\u00e3o almofadas ps\u00edquicas que sirvam para amparar epis\u00f3dios repetidos de mal-estar, agressividade ou conflito entre os pais. As crian\u00e7as n\u00e3o devem ser pretextos para desculpas ou inexist\u00eancia de decis\u00f5es que competem aos adultos tomar. Em casos de viv\u00eancias di\u00e1rias muito complexas ou negativas para o equil\u00edbrio dos mais novos, uma separa\u00e7\u00e3o pode ser, potencialmente, um al\u00edvio ou solu\u00e7\u00e3o do problema.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Qual a melhor altura para comunicar a separa\u00e7\u00e3o?<\/b> N\u00e3o existe o momento ideal. A quest\u00e3o do tempo \u00e9 algo que deve dizer respeito \u00e0 vida dos adultos e \u00e0 sua capacidade para sentirem que s\u00e3o capazes de o fazer.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>H\u00e1 alturas em que as crian\u00e7as e adolescentes podem ser poupados \u00e0 revela\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o?<\/b> Por exemplo, momentos que est\u00e3o muito pr\u00f3ximos de etapas ou viv\u00eancias importantes para os filhos, como a proximidade da \u00e9poca de exames, a perda ou morte pr\u00f3xima de um familiar, a recente entrada para a escola.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>H\u00e1 alguma maneira especial de comunicar uma separa\u00e7\u00e3o aos filhos?<\/b> A melhor maneira \u00e9 ir directo ao assunto. As palavras devem ser simples, mas francas. De in\u00edcio, as explica\u00e7\u00f5es n\u00e3o precisam de ser muito elaboradas. Deve-se sempre assegurar que o amor dos pais pelos filhos n\u00e3o cessa ou termina por acabar a rela\u00e7\u00e3o. \u00c9 fundamental transmitir a ideia de que as crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam que tomar parte do conflito. Para al\u00e9m de tudo isto \u00e9 importante ouvir o que os filhos t\u00eam para dizer, responder \u00e0s suas d\u00favidas e deix\u00e1-las expressar livremente os seus sentimentos.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Quem o deve fazer?<\/b> Devem ser sempre os pais a comunicar a separa\u00e7\u00e3o. Se poss\u00edvel \u00e9 importante que os dois possam estar presentes. Se, de in\u00edcio, a decis\u00e3o for unilateral, deve ser o progenitor que assumiu a situa\u00e7\u00e3o faz\u00ea-lo. No entanto, h\u00e1 pais que nunca assumem a quebra da rela\u00e7\u00e3o, mesmo quando esta implica a sua sa\u00edda de casa ou o in\u00edcio de novas rela\u00e7\u00f5es. Nesses casos, cabe a quem fica mais perto comunicar a separa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>A separa\u00e7\u00e3o provoca sempre sofrimento emocional nos filhos?<\/b>Qualquer separa\u00e7\u00e3o implica a necessidade de um longo trabalho emocional de adapta\u00e7\u00e3o a uma nova realidade, com perdas, aus\u00eancias, reajustes, que nem sempre s\u00e3o f\u00e1ceis para quem os vive. Mesmo quando os filhos se apercebem de um clima anterior de zanga, conflito, frieza ou indiferen\u00e7a entre os pais, \u00e9 vulgar existir uma expectativa de mudan\u00e7a, de regresso a um qualquer ponto anterior ou quase original do relacionamento dos pais. No entanto, quando a rela\u00e7\u00e3o do casal \u00e9 t\u00e3o abertamente conflitual ou agressiva, quando um dos pais \u00e9 reconhecido pelos filhos pela perturba\u00e7\u00e3o da qualidade de rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que o sofrimento provocado por uma separa\u00e7\u00e3o \u00e9 minorado. N\u00e3o s\u00f3 pela sensa\u00e7\u00e3o de protec\u00e7\u00e3o e al\u00edvio como pela diminui\u00e7\u00e3o ou mesmo desaparecimento desse foco de mal-estar di\u00e1rio. Um sofrimento n\u00e3o resolvido pode ser a base de perturba\u00e7\u00f5es importantes e duradouras na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>H\u00e1 separa\u00e7\u00f5es que deixam marcas para sempre?<\/b> A forma como uma separa\u00e7\u00e3o pode deixar marcas duradouras nos filhos depende sempre da maneira como os adultos souberam preservar os mais novos do impacto negativo da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Devem os filhos saber todas as raz\u00f5es da separa\u00e7\u00e3o?<\/b> \u00c9 \u00fatil e necess\u00e1rio existir uma distin\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es, de estatuto e de pap\u00e9is entre os mais novos e os mais velhos. Pais e filhos podem e devem partilhar entre si m\u00faltiplas \u00e1reas das suas vidas, mas deve tamb\u00e9m manter-se sempre uma diferen\u00e7a entre partes que s\u00e3o espec\u00edficas de cada um. Pais e filhos n\u00e3o devem ser companheiros, nem confidentes uns dos outros. Das raz\u00f5es que levam a uma separa\u00e7\u00e3o haver\u00e1 sempre algumas que se podem transmitir aos filhos, mas haver\u00e1 outras que s\u00f3 ao casal importam.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>A cust\u00f3dia partilhada \u00e9 o modelo ideal?<\/b> Simboliza, acima de tudo, uma responsabilidade conjunta no exerc\u00edcio das responsabilidades parentais. Representa a possibilidade de, com em igual peso, ambos os pais poderem decidir sobre o que desejam para os filhos. Mas tamb\u00e9m exige uma boa capacidade de comunica\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo entre os pais, mesmo quando h\u00e1 conflitualidade e dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Hoje em dia, existe a tend\u00eancia para se ligar a ideia de cust\u00f3dia partilhada \u00e0 divis\u00e3o igualit\u00e1ria de tempos de contacto com o pai e com a m\u00e3e.<\/b> N\u00e3o \u00e9 verdade e muito menos representa sempre o modelo ideal. Para muitas crian\u00e7as e adolescentes, repartir a casa do pai e da m\u00e3e implica uma certa maturidade emocional, uma boa seguran\u00e7a e autonomia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s figuras principais de vincula\u00e7\u00e3o e, muitas vezes, a capacidade de gest\u00e3o aut\u00f3noma de quest\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o di\u00e1ria, como roupa e material escolar, entre outras. Esse modelo n\u00e3o \u00e9 aconselh\u00e1vel em crian\u00e7as de muito baixa idade, sobretudo nos primeiros tr\u00eas a seis anos de vida, pois s\u00e3o muito dependentes e autolimitados nas suas tarefas de autonomia, nas refer\u00eancias espaciais e temporais, na linguagem e at\u00e9 na pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o, mesmo quando ela passa pela comunica\u00e7\u00e3o verbal.<\/p>\n<p align=\"justify\"><b>Depois da separa\u00e7\u00e3o, \u00e9 proveitoso continuarem a estar todos juntos em fins-de-semana, f\u00e9rias ou noutras ocasi\u00f5es?<\/b> Se existe uma separa\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bom falsear a situa\u00e7\u00e3o perante os filhos. Eles esperam dos pais uma posi\u00e7\u00e3o de clareza e honestidade que lhes reforce a confian\u00e7a e a seguran\u00e7a relacional e que, mesmo sendo dif\u00edcil de assumir ou transmitir, \u00e9 mais positiva do que a falsidade, a omiss\u00e3o ou a distor\u00e7\u00e3o. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que os pais podem e devem comparecer em conjunto, como nos anivers\u00e1rios, reuni\u00f5es ou festas escolares ou outras que as crian\u00e7as solicitarem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O n\u00famero de casais portugueses que se separa tem vindo a aumentar de ano para ano. Com a \u00faltima altera\u00e7\u00e3o \u00e0 lei do div\u00f3rcio as estat\u00edsticas registaram mais div\u00f3rcios que casamentos. Pedro Strecht, pedopsiquiatra, diz que no seu consult\u00f3rio recebe muitos pedidos de ajuda e de aconselhamento. 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