O meu pai deixou a minha mãe quando ela estava grávida de mim, ele não queria acreditar que eu era filha dele e depois de algum tempo de eu ter nascido fizemos um teste de ADN, onde foi então comprovado, e mesmo assim ele nunca quis saber de mim, sempre procurou a droga… Basicamente fui criada pela minha baby-sitter, ela foi e, é uma segunda mãe para mim.

Eu morava com a minha mãe, e os meus avós…o meu avô é que tinha o papel de pai. O meu irmão estava institucionalizado e só ao fim de semana é que eu estava com ele. Ele foi para adopção quando eu tinha 3 anos e ele 8 anos, apartir daí não soube mais nada dele…

Na escola sofri de bullying por ser a única menina que não tinha pai no meu bairro e, por o meu irmão ter sido retirado. Até aos meus dez anos foi sempre a mesma coisa, batiam-me, gozavam-me, ‘faziam de mim o que queriam’…

O meu avô ficou doente e não resistiu, tinha nove anos quando ele faleceu, senti o meu mundo a desabar, não queria saber da escola, comecei a fumar, ganhei interesse pelo Hip-Hop , onde continua hoje ainda a ser a minha paixão!

Tinha dez anos quando tive um processo na CPCJ, por abandono escolar e juntei-me a um grupo muito mais velho do que eu, alguns deles já teriam atingido a maioridade. Aí, reencontrei o meu irmão, mas só comunicávamos por facebook, pois os pais adoptivos não o deixavam ter contacto com a família biológica. Aos dezassete anos ele voltou a ser retirado à família, onde também veio para a ART!

Aos onze anos comecei a consumir haxixe, passado um certo tempo a minha mãe começou a desconfiar e aos doze anos eu contei-lhe a verdade. Ela com medo que eu consumisse outras substâncias ou com medo que eu arranjasse outros métodos para o comprar, começou-me a dar dinheiro para os meus consumos! A minha mãe já não aguentava a pressão, era o tribunal a apertar por abandono escolar já alguns anos, a filha dela passou a ser uma sem vergonha, e o filho que lutou para o encontrar durante anos tinha vindo parar a uma comunidade terapêutica… Em meados de 2013 deu-lhe uma paralisia facial, eu nem acreditava que estava a ver a minha mãe com a cara deformada… Já não bastava toda a minha revolta e, eu era a culpada do sucedido.

 Já em grupo com as pessoas da velha guarda, comecei a sair à noite onde despertou-me novas curiosidades, como o tranze e o álcool, foi ai que comecei a beber e fumar haxixe com frequência. Numa das minhas saídas nocturnas conheci o meu primeiro namorado, éramos doidos um pelo outro, ele também consumidor, e decidimos começar a traficar, apresentei-o à minha mãe e ela até gostaria um dia o ter como seu genro, mas só não sabia é que ele era como eu…

O problema é que o amor virou obsessão e ao final de um ano de namoro começaram as desconfianças e as agressões. Tinha doze anos, ainda uma menina, e já era agredida pelo meu namorado na altura, ele não me queria com nenhum dos meus amigos, se eu me aproxima-se de alguém já o estava a trair, ele fazia chantagem, obrigava-me a roubar à minha própria família para ter para a noite… Comecei então a tornar-me uma miúda violenta, agredia a minha família, inclusive a minha avó…

Com treze anos fui institucionalizada num Lar de Infância e Juventude, onde habitei durante nove meses, mas as coisas não correram lá muito bem, engravidei, e a minha mãe obrigou-me a abortar. Deixei-lhe de falar, ganhei-lhe ódio na altura, pois o que mais queria era ser mãe, não queria saber sequer como o sustentar, apenas o queria ter.. Fui acusada de tráfico e fiquei sem escola, quase com catorze anos e só com o 4.º ano completo. O meu ex-namorado continuava-me a tratar mal, a minha vida era horrível… Até que conheci a auto-mutilação, só a magoar-me é que eu me sentia bem, tentei-me suicidar várias vezes, mas todas as vezes sem sucesso, saí do “LIJ” em meados de verão de 2016, eu só queria aproveitar o tempo perdido, acabei a minha relação pois aquilo já não tinha pernas para andar, andávamos a remar contra a maré e não valia a pena…

 No dia em que saí da instituição fui logo ter com os meus supostos ‘manos’ , e voltou tudo á estaca zero, comecei outra vez a consumir e traficar, passado semanas de ter saído da instituição o marido da minha tia convidou-me para ir a casa dele fumar um charro, eu fui numa boa, afinal ele era o homem da irmã da minha mãe, mas nessa noite a minha vida mudou… Ele violou-me e disse para não contar a ninguém, muito menos às pessoas da família…

Com medo que a minha mãe apresenta-se queixa e a minha tia ficasse sem os filhos eu, não contei a ninguém. Eu sentia nojo de mim, chorava toda a vez que me olhava ao espelho, foi horrível ver alguém a forçar-me ao que eu não queria, nunca me vai sair a imagem da minha cabeça…

Eu tornei-me numa jovem violenta e problemática, a escola não me interessava, eu queria era curtir, todos os dias bebedeiras e droga para o organismo, em menos de três meses fiquei pior do que era antes de ser institucionalizada, abriram quinze processos por agressões e coisas mais, o juiz deu-me várias oportunidades, mas eu ainda gozava com ele, eu é que sabia de tudo…Comecei a ir para as festas de trance e techno novamente, onde tudo passava, e comecei a experimentar coisas novas, tivesse ou não em festas, eu queria era MD, só assim é que estava tudo bem comigo…

Ganhei interesse por rapazes mais velhos do que eu, só dos 18 anos para cima, todos os fins-de-semana tinha um carro diferente a porta, nenhum rapaz me agarrava eu só queria curtir, sem nunca pensar nas consequências…Jurei vingança a todos aqueles que me ofereciam dinheiro em troca de uma noite, e todos os que tentaram, todos se arrependeram…

Em 2017 um dos meus melhores amigos tinha ido para uma instituição e tudo tinha perdido a graça, nada era igual sem o nosso menino connosco, entrei numa depressão profunda, não saía de casa para nada a não ser para ir buscar droga. Em Janeiro de 2017 acordei a vomitar sangue, fui de urgência para o hospital, mas nada foi detectado, durante seis meses aconteceu sucessivamente, a meio de cada mês ia sempre para o hospital, a vomitar sangue e com dores no abdómen, até que em Junho detectaram-me uma úlcera nervosa no estômago…

Em Junho de 2017 morreram um primo meu e um grande amigo, afogados na praia de Espinho, foram dez dias desesperantes sem saber onde é que eles poderiam estar, foi uma dor tão grande não os poder ver mais. Recaí em coma num hospital, não dava para cair na real, em Julho o meu melhor amigo, melhor amigo do meu primo também, enforcou-se, pois não se tinha mentalizado com a morte do meu primo, eu fiquei de rastos, só queria desaparecer, e busquei um novo refugio, o crack, e assim foi até ao dia de vir para a “ART”.

Vim para a “ART” dia 2 de Novembro de 2017, e aí, a minha vida mudou, eu não acreditava, parecia um pesadelo, eu só queria fugir, hoje passado quatro meses, agradeço por ter vindo para cá, mesmo a 500 e tal km de casa foi o único escape, a esta hora não sabia o que seria de mim, do lado de fora isto parece horrível, mas os monitores são cinco estrelas, sempre preocupados e empenhados no nosso bem-estar, o pai Crespo então, não vale a pena falar, está sempre do nosso lado, espero daqui a um ano poder orgulhar a minha família e ser alguém, e daqui a uns anos vir visitar Associação de Respostas Terapêuticas e os monitores, e saberem que sempre teve algum efeito todo esforço e dedicação à minha pessoa.

Utente da “Art” de Castro Verde

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