Escrever poesia tem o dom de espelhar a humanidade, colmatar os vazios internos e transformar a própria vida. E é assim que o jovem Alef Kauã, utente da ART, se sente quando escreve poesia: confortado, completo e repleto de vontade de mudança.

Mas antes de mais, convém conhecer um pouco mais da sua história, que o mesmo descreveu:

   O meu nome é Alef Kauã, tenho 16 anos e sou natural do Brasil. A minha infância não foi muito generosa comigo porém não foi má de todo. Venho de uma família com poucas posses, por atos de egoísmo e ganância. Fui criado pela minha avó até aos 10 anos, não era fácil para ela com 60 anos trabalhar e alimentar quatro bocas, a dela, a minha e a dos meus primos. Uma semana depois do meu décimo segundo aniversario vim para Portugal, com o intuito de começar uma vida nova e tirar um peso de cima da minha avó. Comecei a escrever poesia e prosa quando vi um livro chamado “A odisseia de Homero”. Fascinava-me a capacidade que alguém tinha para escrever e fazer rimas com palavras. O que me fez ainda mais querer escrever poesia foi lembrar-me de uns rabiscos que via o meu pai fazer que apenas depois de tanto tempo eu descobri que era poesia. A partir daí tive cada vez mais sede de ler e escrever, de estudar poetas famosos e menos conhecidos. Escrevo o que me vai na alma, no pensamento, no coração. Esqueço o mundo quando escrevo e deixo tudo entre a caneta, o papel e o coração.

O poema que iremos apresentar de seguida tem como nome “Caminho” e foi escrito pelo jovem Alef Kauã.

 

Cuidado com a pista que a pista está molhada

Para na caminhada não desestabilizar

Um lado meu coloca crédito

Quero subir mesmo sabendo que do outro lado vem débito

É pesque e pague, pesque o peixe, o peixe é o sonho

Se tu não pescas primeiro alguém pesca e coloca preço

 

Eu desci nesse terreno de concreto

Só para olhar na pupila dos espertos

Eu já olhei na pupila do diabo

E nem com chá de camomila tu matas meu ódio cego

 

Mas as vezes quem faz o versado não faz a versão

E na maioria das vezes quem está mais errado faz sempre questão

O angustiado por meses é sempre o mais são

E quando minha face do clique se aplica na quina da bifurcação

Mas por outro lado é tão complicado o extremo de ambos os lados

 

O pouco sigilo composto à miséria, matéria do amaldiçoado

Fui de forma severa instigado, fui castigado

De medo, receio e receito estou anestesiado

Talvez seja a prova mais viva, a prova mais linda, mais improvável

A morte separa quem sabe a saída de quem anda menos cansado

 

Só posso seguir o que posso sentir, nesse caso é desconfortável

A cartola, o coelho visto com cegueiras não fazem do mago o culpado

Eu vejo as imagens, registo no som a viagem do tom

Maior do que o rádio e a televisão, somos a radiação

 

Não me deixariam viver em paz porque eu já nem vivo mais

São multinacionais, digitais e espirituais

Não posso nem dizer sobre os seus rituais conspiracionais

Mas posso transmitir e receber sinais

 

Você não sabe a metade do que eu sigo

Eu não sigo nem a metade do que eu vejo

Eu vejo tanto que chega a doer de medo

Sabe a verdade? Eu compartilho esse castigo

 

Ninguém para falar o que queres ouvir

Alguém que queira ouvir o que eu quero dizer?

Também vou me libertar, eu decidi

Porém eu estou acorrentado… acorrentado em quê?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *