Os nossos jovens são criativos e muitos deles encontram na escrita uma forma autêntica de desabafo. Nos desafios que lhes lançamos diariamente redescobrem-se, reinventam-se e começam a descobrir o seu verdadeiro valor.

   Muitas vezes lançamos desafios aos jovens e há um mês foi lançado o desafio dos jovens escreverem um texto onde responderiam a duas questões: “quem sou eu?” e “o que faço na ART?”.

   Deixamos aqui um texto da agora ex-utente Carolina Ramos, com 16 anos, que se tem revelado um grande exemplo para outros jovens.

 

                            Quem sou eu?

    Só descobri há pouco tempo quem sou, mas mesmo assim ainda não descobri tudo. Há momentos que vêm ao de cima, atitudes que desconhecia, emoções que nunca tinha sentido tanto boas como más.

   Sou uma miúda, às vezes com alguns rasgos masculinos, mas sim, sou uma menina, sou imatura, influenciável, brincalhona, carente, amiga, às vezes consigo desligar-me dos sentimentos e torno-me fria e interesseira como um cubo de gelo. Consigo ser duas pessoas ao mesmo tempo, consigo ser uma rapariga super confiante, determinada e com objetivos futuros ou imediatos, ajudo as pessoas, dou o melhor de mim ao próximo sem pedir nada em troca, tenho o coração na boca que me permite ser sincera e transparente.

   Como a vida não é nenhum conto de fadas mas sim um conto de falhas, a vida ensinou-me a ter o outro lado, um ladro mais negro. Aprendi a manipular, a mentir, a seduzir para obter algo em troca, a roubar, agredir, a esconder as minhas fraquezas e a meter uma mascara de orgulhosa, arrogante e que não sofre com nada nem ninguém.

 

O que faço na ART?

   Muito sinceramente não tenho palavras para descrever tudo o que aprendi na ART. Uma das boas ferramentas que estou a adquirir é a aprender a lidar comigo mesma. Cheguei à ART com 500 perguntas diferentes, sem identidade, sem algum tipo de objetivo na vida, sem estrutura familiar, desconfiada, sem esperança e sem acreditar em qualquer tipo de tratamento.

Houve muitos confrontos pessoais, obstáculos, castigos, desilusões, sorrisos, vitórias, mas, mais importante, fizeram-me acreditar em mim e no meu futuro.

Hoje em dia mesmo tendo muita coisa a melhorar, já sei quem sou, descobri o meu próprio “eu”, mesmo que por vezes ande todo o dia a mostrar-me mais durona do que realmente sou. Quando chego à minha almofada esvazio tudo para no dia seguinte estar recarregada.

Penso que seja um pouco comum a todos vós, é preciso ter coragem para mostrar tudo o que temos e o que estamos a ser.

Já não tenho tantos problemas de confiança, ganhei autoestima, amor próprio e finalmente gosto de mim.

Isto é um pouco do que se faz na ART.

 

Carolina Ramos, 16 anos, ex-utente da ART Magrelos

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